Bem… o último a sair apaga a luz?
Confesso: já estava achando estranho ser quase o único a escrever num blog com tantos autores. A guinada linfática do JV acabou por me forçar à decisão. Mudo de casa, mas prometo deixar uma cópia da chave numa gaveta antiga.
Passo a publicar meus textos no Tá no papo. (Aceitamos colaboradores, quem quiser, manifeste-se.)
Permiti-me republicar os textos que escrevi aqui, inclusive um do JV.
As últimas semanas foram punk. A greve na USP desencadeou uma discussão entre professores da FFLCH da qual participei intensamente. Resumindo uma longa história, fui contra a greve e a favor da intervenção da polícia. Defendi tudo isso abertamente sozinho (muito embora recebesse privadamente manifestações de apoio). O resultado foi uma baixaria como eu nunca havia visto antes. Só não me chamaram de “santo”. Num dos piores momentos do “debate”, um imbecil foi ao blog do Nassif, e pinçou um parágrafo fora de contexto, no qual eu defendia a judicialização dos conflitos salariais do funcionalismo público. Proibição de greves no funcionalismo COMPENSADA (eis o detalhe…) por reposição automática de perdas inflacionárias. Neguinho pinçou a passagem, como eu disse, para me desqualificar como interlocutor. Foi um forrobodó. Fui obrigado a bater forte, para não passar recibo, e o caldo entornou de vez.
Apaguei minha página no Nassif, e fiquei pela primeira vez travado para escrever sem pseudônimo. E, para falar com toda a franqueza, brochei. Nâo sinto hoje o mesmo prazer que sempre sentir de participar da Internet. Fico me vigiando, a aí a coisa não rola. Não funciona.
Estou mais para leitor, Bruno. E palpiteiro. Se você seguir carreira solo, vou atrás, dando meus pitacos. Mas vou ficar por aqui. Por enquanto, pelo menos, estou de molho.
E as sobremesas sicilianas? Sem comparação. Ainda mais se comidas lá…
E eu, que só experimentei no continente? (Pensando bem, já comi das autênticas sicilianas, sim: talvez não na ilha, mas certamente algumas provenientes da Sicília – minha mãe tinha essas cabeças-durices, que herdei, que a faziam trazer, no trem para Roma e depois no voo para São Paulo, por exemplo laranjas e abricós de marzipan – I mean it, o verdadeiro, não esse simulacro que cá nessas bandas comemos, de castanha-do-pará; os artistas que as pintam e lhes dão acabamento não se encontram – ou não se encontravam, até uns anos atrás – com essa qualidade nem mesmo na Itália: é outra especialidade insular.)
E se estivermos, ainda por cima, em outro continente?! Caso perdido?
Calma, calma. Seus problemas acabaram. Ou começaram, dependendo do ponto de vista. Manter a leitura →
Não consigo expressar meu assombro ante o fato de haver perecido toda memória a respeito de algumas espécies de plantas; até mesmo os próprios nomes de algumas, mencionadas por vários autores, se perdeu. Entretanto, quem não admitiria que agora, quando as intercomunicações se estabeleceram entre todas as partes do mundo, a civilização e as artes da vida tiveram um rápido progresso, graças ao intercâmbio de mercadorias e, comum a todos, ao gozo da bênção da paz; e que, ao mesmo tempo, uma multidão de artigos, antes ocultos, agora se revelam para nosso uso indiscriminado?
Ainda assim, por Hércules! hoje em dia não se vê ninguém com o mínimo conhecimento do que os antigos escritores nos legaram; tão mais compreensiva era a pesquisa diligente de nossos antepassados, assim como sua indústria, empregada com tanta mais felicidade.
A moda dita novos costumes e usanças, não há dúvida. As mentes dos homens estão ocupadas com objetos de natureza totalmente diversa; as artes da avareza, de fato, são as únicas cultivadas hoje em dia. Manter a leitura →
Bem, aqui sigo eu no meu alheamento… Não sei se esse blog é democrático ou não (atributo que tem sido alvo de críticas recentes); mas seja como for, num caso ou no outro, sinto-me no pleno direito de postar aqui as minhas bobagens, à margem do atual conflito universitário, mas também cá com alguma perspectiva histórica, vá. Todos aqui já perceberam que estou mais pra “papinha” do que pra “pimenta”. Cada um no seu quadrado.
Estava falando das várias representações da comida na obra de Gilberto Freyre – ricas e, às vezes, um pouco contraditórias. Manter a leitura →
As cenas de guerra a que todos assistimos no campus da Universidade de São Paulo talvez possam ter tido como causa imediata a incapacidade de solucionar conflitos da reitora e de seus assessores. Mas tem como pano de fundo a utilização por funcionários e alunos da universidade de dois instrumentos que deveriam ser banidos do convívio acadêmico: o piquete e a invasão de prédios públicos. Manter a leitura →
Abandonados e náufragos também parecem os brasileiros retratados por Gilberto Freyre em Sobrados & mucambos. Ao menos boa parte deles, do ponto de vista alimentício.
É um tanto paradoxal. Se a compararmos à dos porteños dos sécs. 16 ou 17, a situação dos brasileiros poderia ser o paraíso. Mas calma. Pra começo de conversa, estamos falando quase de um continente. Não dá pra botar o Brasil inteiro no mesmo saco, seja qual for a perspectiva. Mas imaginar populações inteiras subnutridas ou carentes de carne, peixe e verduras num país como o nosso, num passado não tão distante (pra não falar dos dias atuais), é um desafio a toda fantasia e razoabilidade. E, no entanto, é fato. Manter a leitura →
Um dos problemas atávicos da sociedade brasileira é a idéia de que o povo são os outros. Tem muita gente que não é povo. Empresários, políticos, artistas e intelectuais não são povo. Povo é a aquela gente que trabalha nas fábricas, nas lojas, nas casas do não-povo e morre aos montes nas filas dos hospitais, em confrontos com a polícia, em acidentes de trânsito. Aquela gente que não sabe votar, que freqüenta as escolas das periferias (os filhos do não-povo vão a colégios), que vê TV o domingo inteiro, que compra a geladeira nas Casas Bahia em 24X (alimentando, que horror, as maiores taxas de juros do mundo).
Na outra ponta, os não-povo são a elite. Para esta, o problema de transformar este acampamento em uma nação é teórico. De fato, fica feio quando ela vai para a Europa e tem de explicar aos amigos franceses que cidadania é um conceito que não “pegou” no Brasil. Que os sistemas públicos de saúde, educação, segurança não funcionam e que apesar disso, todos estamos felizes e o Brasil é sem dúvida o melhor lugar do mundo para se viver. Aqueles relatórios da Anistia Internacional, do Green Peace são, de fato, um vexame. Mas o que se pode fazer? O Estado é de direito. O Supremo Tribunal Federal tem atuado lindamente na defesa dos abusos cometidos aqui e acolá contra os perseguidos da Polícia Federal. A imprensa é livre e plural. O mercado é concorrencial. O sistema financeiro é dos mais saudáveis. Temos ótimos colégios. Ótimas universidades, ótima medicina. Além de ótimas praias em excelentes resorts. Manter a leitura →
Domingo é um tédio… clichê, ok. Clichê, mas, para pessoas avulsas como eu, é também uma verdade.
Não que eu não tenha mil coisas para fazer. E acredite, eu fiz.
Estréio sem pimenta, só com a papinha.
Queria falar sobre – escrever sobre – Simone de Beauvoir, mas a Maria Rita Kehl já fez isso hoje e fez bem.
Pensei em falar – já sei! escrever – sobre o Paraguai, mas estou sem paciência.
(Sim, eu sou monotemático.)
Ontem e hoje vi dois filmes. Saí para ver ‘entre muros’ e vi outro francês, ‘medos privados, lugares públicos’, algo assim. Bem francês, pretensioso e superficial. Hoje vi outro, sobre Freud, péssimamente traduzido, “Freud além da alma”. Eu gostei do filme, mas não aconselho. De meados dos 1960, se concentra nos primeiros percalços e ridículos da carreira do então aspirante a psi… Pensando bem, é ótimo filme para pessoas como eu, que ainda sonham em ou acreditam ter uma carreira…
Aliás, é para ela que volto agora. Com ela, minha vida parece um pouco menos entendiante.
Boa semana!
Voltamos uma semana depois dos ataques de 11 de setembro. As bases da OTAN na Itália ficavam a poucos quilômetros de nosso terraço, e os caças americanos davam rasantes o dia todo. Vincenzo D’Allaccio, nosso senhorio, morava no primeiro andar do casarão de alguns séculos, com seu terraço sul mare, sua lareira, seus quartos enormes. Soltava uma exclamação depois de cada vôo, a que a mulher respondia, do outro extremo da casa. Gordíssimos ambos. Manter a leitura →
A gente encontra qualquer besteira escrita na net, inclusive esta. Convém saber que eu também escrevo de orelhada… vou me informando, ou fingindo fazê-lo, à medida da necessidade. Outro dia, voltando às culinárias romanas antigas, li numa página que os escritos de Apício(s) era(m) o(s) primeiro(s) livro(s) de cozinha de que se tem notícia. Não precisaria mais do que ler o Apício para saber que isso é uma inverdade. (Sem sequer falar nos outros textos, anteriores, de que até hoje dispomos, inteiros ou não.)
Pois bem: surgiu a ideia de tentar realizar, ou seja, preparar e consumir um menu romano – sem a correspondente etiqueta, please.
Por onde começar? Uma base histórica, claro, minimamente estabelecida. Uns textos. Uma interpretação destes, començando pela tradução, e quem sabe chegando no “Não, o fogo agora é mais baixo”. Manter a leitura →
É com profundo pesar que informamos a nossos leitores e amigos o passamento desta para melhor de nosso sócio e colaborador Aluísio Fornasaro. Carinhosamente apelidado de “Pastel”, Fornasaro começou a carreira como ghostwritter da Sandy, da dupla Sandy & Júnior. Em nome da cantora, escreveu diversas cartas de amor para o violinista Lucas Lima, conquistando rapidamente as boas graças do rapaz graças a sua habilidade no trato com a palavra. Após uma passagem rápida pelo blog do Wagner Montes, foi contratado pela Papinha para fazer a cobertura de um bolo de chocolate e de uma cabrita no cio. Franceses tous les deux. No cumprimento de mais esta missão jornalística, nosso querido Pastel havia embarcado na fatídica aeronave da Air France que como todos sabem acabou se esborrachando no Atlântico. Em sinal de luto, retiramos a foto de Fornasaro de seu nicho no panteão de colaboradores. Há notícias de que o ilustre blogueiro voltará em breve às páginas da Internet por meio de um medium capixaba já contatado por nós, que servirá de “cavalo” para que o talento, a graça e a vasta cultura de Aluísio Fornasaro possam abrilhantar cada vez mais este espaço.
Eu sempre quis me matar. Você pode ter tido a melhor vida que o destino é capaz de fornecer. Casinha pequena, mas muito jeitosa, pendurada num penhasco amalfitano; capacidade para fazer pequenas improvisações na clarineta; seus livros num escritório com uma rede num canto e uma deliciosa poltrona no outro; amigos de dar gosto, namorada de dar inveja, uma gigantesca coleção de rolhas e um simpático sheepdog circulando pelo ambiente. E aí, de repente, uma doença ocupa todo o espaço da vida. Cadê a sua boa estrela? Bá-bau. Manter a leitura →
O que move o homem muitas vezes é a necessidade. Delas, talvez a mais instransigente seja a fome (e a dor, claro).
Como não estou no boteco – onde esse esboço de filosofia estaria mais bem situado –, deixo de lado quase todas as implicações das máximas acima; só reservo algumas pra introduzir um assunto. Vou usar para tanto a divertida retórica intelectual italiana (a do “dottor Ludovico”, personagem de um amigo). Os italianos eruditos são capazes de dizer as coisas mais estapafúrdias, ou razoáveis, com a mesma clareza e nonchalance, passando inadvertidamente de um para o outro. Mesmo quando escrevem textos grandiosos, dá pra ver o sotaque do preciso, do pernóstico e do arriscado querendo se manisfestar. Exatamente como este que vos escreve (tirando o “grandioso” ou qualquer coisa próxima disso). Manter a leitura →
Bem, eu não acho que existe um ragù alla bolognese, mas vários.
Você pega receitas tradicionalíssimas e elas têm quase sempre algumas diferenças, mesmo que não essenciais. (Vamos nos ater, aqui, às receitas originais da Emiglia-Romagna, região da Itália cuja capital é, com toda propriedade, Bolonha.)
Deixado todo dogmatismo pra lá, por outro lado é preciso dizer: não, o ragù alla bolognese – o molho à bolonhesa – não é uma sopa de tomate com carne moída boiando dentro, como tantas vezes se come no Brasil e em muitos outros países. Manter a leitura →
Roald Dahl, A fantástica fábrica de chocolate:
Coitado do Sr. Bucket, por mais que ele trabalhasse […], não conseguia ganhar dinheiro para comprar nem a metade do que a família precisava. Não dava nem para comprar comida suficiente para todos. Todos os dias eles só comiam pão com margarina no café da manhã, batata cozida com repolho no almoço e sopa de repolho no jantar. Aos domingos era um pouquinho melhor. Todos esperavam ansiosos pelo domingo, porque, embora comessem exatamente as mesmas coisas, tinham direito a repetir. [1]
Das várias qualidades do romance juvenil de Roald Dahl, uma é o retrato pungente, não sem alguma dose de humor (negro), das condições de sobrevivência das classes operárias num tempo e local não tão indefinidos assim. Não é difícil enxergar a “casinha de madeira, nos arredores de uma cidade enorme” na periferia de uma grande cidade industrial britânica ou norte-americana, em tempos de Revolução Industrial ou Grande Depressão. Não importa essa localização geográfico-temporária, afinal: em algum lugar, com guerra ou sem, o andar de baixo vai sempre penar pra fechar o mês, isso não muda. Manter a leitura →
Como não sou jurista, devo partir de uma suposição que talvez se revele falsa. Os que entendem mais do assunto poderão me corrigir. Ei-la:
Há leis positivas que proibem o Estado de conservar presos nas condições encontradas em muitos presídios brasileiros.
Ligeiramente reformulada, esta suposição diria o seguinte:
A manutenção dos presos nas cadeias é feita atendendo-se principalmente a razões extrajurídicas, de ordem pragmática. De um ponto de vista estritamente jurídico, não é apenas desumano, cruel e degradante manter presos nessas condições. É ilegal.
Se esta suposição que estou fazendo pode ser sustentada argumentativamente, eu proporia que os diretórios estudantis do Brasil todo iniciem um movimento. Manter a leitura →
Continuando: tentava comparar a cozinha apresentada no Satyricon (excetuados os pratos mais absurdos) aos historicamente estabelecidos, ainda que com grande intervalo de tempo, no De re coquinaria.
Vejamos umas poucas receitas de Apício que se aproximam de pratos servidos no banquete de Trimalquião: Manter a leitura →
Afresco de Pompeia (Museo Archeologico Nazionale di Napoli)
Retomando – trata-se de uma tentativa de leitura “culinária” de algumas obras latinas clássicas, uma sátira de Juvenal (e de Horácio, de passagem), o Satyricon. Dizíamos: por um lado não podemos esquecer que o discurso satírico não é realista, mas usa do exagero para atingir seu objetivo retórico. Por outro lado, proponho: há sim certa historicidade nos pratos servidos na Cena Trimalchionis do Satyricon, mesmo com toda a sua teatralidade, anedotário, artificialismo.
Antes de continuar, um aviso importante: nêgo lê isso e acha que eu sou erudito. Daqui a pouco vão me chamar de latinista (justo eu, que engripei entre a 3a e a 4a declinações). Sim, gosto de literatura, leio e tal; mas aqui meu foco é outro. Não falo como entendido, mas como interessado. Manter a leitura →
Qual é a diferença entre um homem desempregado e uma mulher desempregada? Ambos têm um problemão sobre o colo, não tenho a menor dúvida a esse respeito. Mesmo assim, a diferença é gigantesca. A mulher terá um problema circunscrito, localizado, que afetará seu padrão de vida, mas deixará mais ou menos intacta a sua personalidade pública. Continuará tendo os amigos e amigas que tinha, o marido que tinha, o respeito dos filhos e dos vizinhos. Se for solteira, continuará tendo mais ou menos as mesmas chances que tinha antes de ser amada por um homem, e eventualmente de se casar com ele e constituir uma família.
O homem, em compensação, estará reduzido a uma sombra. Manter a leitura →
(Esse texto foi ficando tão longo – de post virou ensaio – que resolvi quebrá-lo em algumas partes. Não sei se ajuda ou atrapalha a leitura, mas agora já foi.)
Peixes num mosaico de Pompeia (Museo Archeologico Nazionale di Napoli. Foto: Massimo Finizio)
Outra cena memorável da gastronomia literária latina é o banquete de Trimalquião, o maior dos fragmentos que compõem o que nos chegou do Satyricon. Seu autor, Petrônio, viveu sob Nero, ou seja, no primeiro século de nossa era. Não vou contextualizar o Satyricon aqui (como não vou considerar se o correto é grafar com y ou com i: Satiricon). Há bastantes edições atuais e o leitor que o queira, se informa mais facilmente – e com mais precisão – do que eu o faria em seu lugar. A mim interessa a representação da cozinha e seu universo. Manter a leitura →
Quando a gente chega atrasada, sempre come frio. Os caras já falaram de quase tudo em cinco dias. Fizeram xixi no poste, já disseram a que vieram. Mostraram suas armas e seus encantos.
Isso num mundo em que tudo já foi dito. E por gente bem mais qualificada que eu. Então devia me perguntar quem me deu a ousadia. Manter a leitura →
Saudações, leitores inexistentes!! Eis aqui uma brevíssima apresentação. Aceitei o convite para importuná-los. Gostaria de para falar a vocês especialmente sobre o Ser. Seria ambicioso demais, se, como reza Aristóteles, o Ser não fosse dito de muitas maneiras.
Apoiando-me no “Filósofo” (assim ele era chamado por S. Tomás), digo que minha área de atuação é ampla, tanto quanto admitem as maneiras de que se fala o Ser: vai da empadinha do bar da esquina à esquina do balcão onde está a empadinha. (Falaremos, noutra ocasião, sobre o ser da empadinha, esta magnífica reunião entre Forma e Matéria.) Isso ao modo do ensaio, gênero que antigamente condensava o melhor da inteligência em prosa solta e rapsódica, rente à literatura e capaz de insights filosóficos, e que hoje, por força da sabida descida abaixo da educação nacional, serve o mais das vezes (o meu caso, com certeza) para esconder, sob o pretexto da forma, falta de vergonha em escrever. Manter a leitura →
Tem gente – gente, mesmo, e não abomináveis monstros insensíveis – que considera programas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família, um remendo temporário. Quando muito. Grande parte diria francamente, longe das câmeras, que é simplesmente parte do preço que a sensatez tem que pagar à política para ter direito a um discurso eleitoralmente viável. A verdade dura e sem tempero, segundo eles, é que programas desse tipo introduzem vias tortas na economia que é difícil, depois, desentortar. Quando me referir à direita, estarei me referindo a esse tipo de gente – me referindo, mesmo, e não utilizando um epíteto estigamatizante para ver se o camarada se inibe, não sobe ao ringue, e eu ganho por WO. Adoro brigar.
E sou de esquerda, por antonímia. Só que, além disso:
Brigo contra o preconceito existente contra homens nos tribunais, que (apesar das leis, e às vezes até contra elas) ainda privilegiam as mulheres na hora de dar a guarda da criança. Manter a leitura →
Vindo para cá (estou numa gráfica, esperando o jantar dos impressores, para depois continuar o trabalho) vi, no final da Marginal Pinheiros, uma capivara atropelada. Segundos depois, pensei que deveria ter parado – estava na pista da esquerda, já havia uma moto parada na faixinha que finge de acostamento – e carregado a tal capivara. Durante alguns momentos, fiquei na dúvida, arrependido. Só bem depois raciocinei: mas não ia dar certo, botar a capivara no porta-malas e ficar 8, 10 horas trabalhando na gráfica, imagine o cheiro! E minha mulher, quando visse aquilo? Trocava a fechadura de casa. Ou a capivara morta, ou eu. E depois, quem disse que a capivara tinha morrido atropelada? E se fosse gripe?
‘Cês devem estar me achando louco, ou mentiroso. Nem um nem outro. É a mais pura verdade. Explico.
Lá pelo meio do primeiro semestre, eles aparecem na porta. “Podemos dar um informe?” Claro, por favor. Informem. Sorriso amarelo. Eu só estava falando bobagem, mesmo. Isso pode muito bem ficar para depois. Enquanto vocês conversam, vou tomar um gole de água. Desço até a barraquinha da pipoca, tomo uma cocacola, como um prestígio, subo à secretaria, “oi” prá todo mundo, vasculho minha pasta, abro o holerite, o resto vai pro lixo, entro no banheiro, faço xixi, olho a inacreditável cara de cinquentão no espelho, e volto para a classe trazendo comigo o mesmíssimo sorriso que levei na boca. Claro, ainda estão por lá, cantarolando com estridência a milionésima variação sobre o mesmo tema. Aquele mesmo discursozinho tosco que, quando eu tinha a idade deles, já estava com mal de Parkinson. Mais ou menos assim.
Primeiro, a terra. Não é bem um país, mas é como se fosse. O nome é uma sigla, e só uns poucos habitantes realmente vivem nele, em abrigos improvisados. O resto são transeuntes. Passageiros. Em compensação, tem território fixo, fazendo fronteira com um rio, uma favela, uma vilinha de classe média e um ponto de travestis. Manter a leitura →
Falava, no primeiro post, de um certo refinamento gastronômico, a meu ver recente no Brasil, acenando às suas plausíveis vantagens e desvantagens. Esse refinamento frequentemente recai em acentuar os ingredientes e suas misturas tantas vezes inesperadas. É um tal de lascas foie-gras com purê de batata barôa e ora-pro-nobis prum lado, de escalopes com feixes de carambola caramelizada pro outro.
Não que importe a minha opinião: mas acho diferente frescor de ingredientes de frescura de chef.
Em que pese uma coisa e outra, acho esse um ponto básico: a boa culinária, quando não tapa-buraco, sempre repousa sobre bons ingredientes. É um divisor de águas – bastante óbvio, mas continua sendo. Não é por outro motivo que o caldo de motocó de um boteco é melhor que o do vizinho.
Hoje escolhi, pra tergiversar sobre isso, uma sátira de Juvenal, escritor romano que viveu entre os sécs. I e II da nossa era. Manter a leitura →
Fui convidado a escrever sobre culinária no “Papinha”. É preciso algum esclarecimento pro leitor desavisado. Em primeiro lugar, queria alertar que não tenho nenhuma autoridade sobre o assunto. Especialmente nos dias de hoje, em que a cada esquina surge um especialista nisto ou naquilo. Não fiz curso de “chef”, não frequento os restaurantes bacanas – pelo menos não enquanto a diretoria do “Papinha” não me dotar com o orçamento necessário para criticá-los, função que exercerei com toda a improbidade e desfaçatez, assim que o julgarem oportuno.Manter a leitura →
O fã já é ridículo por natureza. Qualquer fã. Mas o de Reinaldo Azevedo é mais. Conhecem o tipo? No meio da discussão, quando o final da amizade já parece inevitável, larga a chamar o delegado Protógenes Queiroz de “Proctógenes”, e os petistas (entre os quais ele está absolutamente convicto de que você se inclui) de “petralhas”. Você pede um argumento sereno, e ele lhe devolve um berro. Lembra seu passado de lutas e desenganos. Fica emotivo. É infernal.